Utilizo a língua portuguesa para refletir, justamente, sobre o tema das línguas, de seu peso poético e político no contexto acadêmico contemporâneo.[1] Nos últimos tempos, tenho revisitado um ensaio que tive o prazer de traduzir e inserir numa antologia de textos de Arcadio Díaz-Quiñones, que organizei para a Companhia das Letras e que foi lançada, no Brasil, com o título A memória rota: ensaios de cultura e política (Díaz-Quiñones 2016a).[2]
Trata-se de “Hispanismo e guerra”, texto originalmente publicado em Sobre los principios: Los intelectuales caribeños y la tradición, lançado na Argentina em 2006, pela Universidade Nacional de Quilmes, e que teve recentemente uma segunda edição, revista, na série Nuevas Investigaciones da LASA Press (Díaz-Quiñones 2024).
Em “Hispanismo e guerra”, resumidamente, o autor mostra como a concepção moderna da poesia hispano-americana é, em grande parte, um movimento de resgate simbólico de uma região que se perdia. Nos discursos sobre a literatura hispano-americana, o crítico busca compreender a reação espanhola à perda de suas colônias, no contexto da guerra hispano-americana de 1898, quando áreas como Porto Rico e as Filipinas passaram a outra jurisdição, com a entrada em cena de um novo império: os Estados Unidos.
Toda perda dispara e condiciona uma recuperação simbólica. Uma perda absoluta, sem recuperação possível, seria o caminho da melancolia. Entretanto, “Hispanismo e guerra” é a investigação de uma reação vigorosa, que não deixa de ser parte de um luto [duelo] pela perda das colônias. Gosto da expressão em espanhol (duelo) porque ela guarda em si a dor (dolor), o que se perde um pouco seja no português (luto) ou no inglês (mourning), mas se mantém no francês (deuil).
Trata-se, em suma, de um império doído, lastimado pela amputação daquilo que, do ponto de vista espanhol, seria seu, mas que lhe foi roubado por outro império.
Em seu ensaio, Arcadio Díaz-Quiñones estuda a Historia de la poesia hispano-americana do escritor e filólogo espanhol Marcelino Menéndez y Pelayo, publicada na Espanha entre 1911 e 1913. Passo a palavra ao próprio Arcadio, que cito agora na minha língua, que também funciona à sombra do colonialismo ibérico. Lembrando que língua e poder não se separam nunca, especialmente quando o substantivo (língua) é precedido pelo pronome “meu” ou “nosso”.
Vejamos como Arcadio soa na “minha” língua, portanto:
O objetivo de Menéndez y Pelayo [em sua Historia de la poesia hispano-americana] era restaurar o lugar central da “madre patria” não apenas frente às independências como também frente ao poder norte-americano. Sua Historia queria ser compacta e autocontida: nada deveria ficar isolado. Essa interpretação recuperadora inclui, até certo ponto, as “heresias” que, como assinala Michel de Certeau, desejam “explicar com seu saber o que, por pouco tempo, se lhe escapou, reintegrar o aberrante”. Mas Menéndez y Pelayo confrontou-se com zonas e figuras que resistiam a entrar no relato e tinham que ser conjuradas ou apaziguadas. As dificuldades se tornam visíveis quando enfrenta posições que realizavam o mesmo ato de beginnings[3], mas de lugares distintos. Tratava-se, para ele, de outros heterodoxos. É o caso, por exemplo, do discurso separatista dos porto-riquenhos Ramón Emeterio Betances (1827-1898) e Eugenio María de Hostos (1839-1903), ou dos cubanos José Martí (1853-1895) e Enrique José Varona (1849-1933), todos contemporâneos. Por outro lado, ao sublinhar enfaticamente a continuidade, Menéndez y Pelayo confrontava-se — como veremos no caso de Santo Domingo e em seus juízos sobre Porto Rico — ao obstáculo de integrar em seu relato colônias fronteiriças nas quais a cultura letrada e o Estado-nação tinham sido débeis. O que ocorre, o que ocorreu nas zonas fronteiriças, nos territórios que não figuram nos mapas “nacionais”? O ilegível das fronteiras antilhanas semeia dúvidas no coração do debate do relato construído por Menéndez y Pelayo. Sobre isso também me referirei mais adiante (Díaz-Quiñones 2016a).
Eu precisaria de muitas páginas para desdobrar o grande mapa que esse simples parágrafo desenha. Muitas frentes de interpretação e contestação política se organizam nele em torno de alguns eixos: o tortuoso processo de independência das colônias; o desejo de totalização; os fantasmas que precisam ser conjurados e apaziguados; o poder dos beginnings de Said, que Arcadio Díaz-Quiñones amplia graças à ambivalência da palavra espanhola “principios”; a piscadela à heterodoxia, que Menéndez y Pelayo associa à apostasia, mas que, no plano das reflexões maiores de Arcadio, faz lembrar a sofisticada admiração de Rubén Darío pelos “raros” da Europa e do Caribe; a ansiedade diante da ruptura e a consequente busca da continuidade; a aliança do discurso nacional ou estatal com a cultura livresca na Cidade Letrada (Rama 2002); e a legibilidade daquilo que se coloca na fronteira e termina por exceder e transbordar o marco nacional, que é afinal o plano das definições peremptórias, em tudo avesso às oscilações de sentido.
Poderíamos ainda falar da tonalidade, da velocidade, do ritmo e da escansão que o pensamento de Arcadio Díaz-Quiñones tinha que ganhar em língua portuguesa. Um dos prazeres — e desafios — ao trabalhar sobre o seu texto era que eu podia escutar o autor (imaginariamente ou não) enquanto o traduzia: suas pausas de sentido; os momentos de aceleração do pensamento; a busca da clareza em meio a todo um universo de referências implícitas; e esse inconfundível remate: “A ello también me referiré más adelante”, como que postergando o tema principal, que nunca chega. Esse tipo de remate faz lembrar o que, no plano privado, Arcadio conta sobre um tio seu, se bem me lembro, que, ao final de uma longa conversa, dizia, como se nada tivesse sido discutido até ali: Después hablamos...
Nesta minha breve intervenção, fico com a questão da legibilidade. O que Menéndez y Pelayo, ao escrever com a pena do império ferido de morte, pretende haver lido, e o que ele não pode ler? Mas que textos são esses que se dão a ler ou que escapam a quem tenta colocá-los dentro de um livro, ou de uma história literária?
Arriscando uma fórmula, suponho que a legibilidade, em Arcadio Díaz-Quiñones, conecta-se às fronteiras móveis das tradições e das línguas que se misturam nas zonas que o poder colonial quer controlar, mas não pode. Espaço onde outras línguas contaminam a suposta pureza da língua hegemônica, como na Nuevayol dos Nuyoricans e de Bad Bunny[4], na poesia de Palés Matos flertando com as matrizes bantu ou iorubá, bem como nos desenhos de Consuelo Gotay, ali onde os traços das vanguardas encontram as linhas de outras tradições pictóricas (“te da la línea el pirata”, escreveu o poeta).
Espaço fronteiriço capaz de sugerir outros mapas, nessa grande cimarronaje[5] que é o exercício da língua diante do Império. Língua e tradição literária que não cabem nas Historias da literatura, porque rompem o pacto colonial, encontrando aquela saída que o próprio Arcadio Díaz-Quiñones exalta, em contexto diferente, quando se refere a Albert Hirschman e a essa tríade conceitual — “exit, voice, and loyalty” (Hirschman 1972) —, que permite pensar a lógica das resistências mais humildes em sua complexidade e em seu caráter refratário à leitura maniqueísta dos heroísmos.
Abusando da imagem da tríade, e pensando-a como uma espécie de trinado na partitura do próprio pensamento, gostaria de terminar pensando na figura do “terceiro”. Arcadio Díaz-Quiñones promove também um diálogo profundo com os estudos pós-coloniais e a tradição desconstrucionista, que por sua vez briga — ou brega, no sentido portorriquenho de negociar e lidar taticamente com a realidade — com a filosofia ocidental e suas intermináveis dualidades. No que diz respeito ao terceiro termo, ou simplesmente ao “terceiro” e sua resistência ao “isto ou aquilo”, não seria adequado e mais efetivo empregar o ten con ten de Palés Matos?[6] Penso, de passagem, na bela construção de um tríptico no ensaio de Arcadio Díaz-Quiñones sobre “De cómo e cuándo bregar”, que também tive o prazer de traduzir ao português (Díaz-Quiñones 2016a).
O pensamento de Arcadio Díaz-Quiñones, assim, se expande por meio desses trinados, de trípticos ou sequências que resistem ao alicerce de uma lógica que, mesmo em insuspeitadas zonas do pensamento dialético, baseia-se na afirmação e na subsequente negação. O risco desse modelo dual é a criação de uma estrutura lógica invisível que expurga a zona cinzenta das enunciações que partem de (e sustentam?) ambiguidades. Ambiguidades que são legião na situação colonial, quando não são um dos principais pontos de apoio para a luta surda de suas minorias políticas.
Seja como for, o poder do terceiro termo segue brilhando, o que me faz recordar lalangue, isto é, aquele espaço tão difícil de definir que Lacan imaginou em La troisième, onde ouvimos/lemos: “la voix est libre, libre d’être autre chose que substance” (Lacan, 2011). Uma língua solta que, de alguma forma, escapa ao espaço regulado pela própria língua, ali onde a voz se desprende do lastro da substância.
É curioso que o psicanalista só pôde imaginar tal espaço, lembremos, ao retorcer a língua francesa. Língua na qual, há quase dois séculos — invocando outras tradições imperiais e seus fantasmas —, foi inventada a expressão América Latina, que começou a se generalizar justamente no contexto da invasão do México pelas tropas de Napoleão III. Galho linguístico — as tais línguas românicas — supostamente oriundo da estirpe latina. Galho imperial, finalmente, sem o qual não estaríamos hoje aqui, numa associação de estudos latino-americanos, em Paris. Eis um novo ensaio a escrever-se: “Latinismo e guerra”...
Para além de qualquer boutade, noto que “Hispanismo e guerra” é também um longo e oblíquo comentário sobre o fim do Department of Romance Languages and Literatures na Princeton University, com seus processos de conjuração e tentativas de apaziguamento, ali onde os impérios — nesse caso, uma vez mais, os impérios francês e espanhol — se enervam diante da suposta ameaça daqueles que teimam em fugir ao jugo de sua força, e que, ao fazê-lo, criam rotas de escape e sobrevivência bastante criativas.[7] Mas talvez essas já sejam outras histórias, que apontam para as zonas de resistência no seio da língua imperial, ali onde os falantes recusam uma retidão que nada mais é, afinal, que uma grande fantasia de poder.
Entretanto, com o prêmio que a LASA outorga a Arcadio Díaz-Quiñones, os impérios — que se escondem nos gestos linguísticos que nos nomeiam e nos situam — não podem mais passar ilesos. Abre-se, nas fronteiras das línguas imperiais, uma clareira, ou talvez uma saída em direção àqueles refúgios em que a língua brinca de ser impura. Espaço a descobrir e onde nos sentiríamos convidadas e convidados a seguir em frente, reatando, no plano simbólico, aquilo que ameaça romper-se, no fundo mais fundo da comunidade. Sem épica, sem vitória, simplesmente empezar de nuevo, buscar novos beginnings.
O ímpeto é continuar pensando com Arcadio Díaz-Quiñones, sempre, mas não me resta mais tempo.
Después hablamos.